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O potencial dos resumos gráficos: como dar aos nossos artigos e trabalhos a “capa” que merecem

Quando comecei a minha formação como médico, percebi desde logo a importância que a produção de evidência científica tinha na área da saúde. Todas as aulas eram baseadas em artigos científicos, a maioria dos quais bastante jovens (até do próprio ano em que tive essas aulas).


Mas só mais tarde me deparei com o desafio de produzir essa mesma evidência científica e de a tentar publicar numa revista científica. Certamente também já passou por um processo semelhante:

  1. Trabalhar numa investigação durante vários meses;

  2. Traduzir essa investigação num ou mais artigos científicos;

  3. Enviar um manuscrito para uma revista científica;

  4. Aguardar meses pela sua revisão e aprovação;

  5. Celebrar o sucesso de ter uma publicação científica.


Comecei então a questionar-me sobre o verdadeiro motivo pelo qual me dedicava tantas horas a estudar e a produzir evidência científica. A conclusão: para tornar a comunidade num local mais saudável, próspero e feliz.


Um dos problemas mais sérios que o processo de produção de evidência científica atravessa é a divulgação dos seus resultados. A participação em congressos científicos mantém esta evidência num circuito fechado de investigadores e profissionais de saúde, muitas vezes através de formatos complicados de compreender para leigos. E mesmo assim, apenas uma ínfima percentagem de investigadores e profissionais de saúde participa regularmente nestes eventos. Por isso mesmo a comunicação de ciência e comunicação em saúde é tão importante.


Estará realmente a evidência científica a chegar a quem queremos? Sejam eles investigadores, profissionais de saúde, associações de doentes, políticos ou potenciais financiadores.


homem a olhar para artigos científicos colados numa parede
Mais de 7.000 artigos são publicados todos os dias. É fácil ficarmos perdidos neste "mar de evidência científica".


O que é um resumo gráfico?

Só há bem pouco tempo ouvi falar de resumos gráficos. E provavelmente também já ouviu falar deles. Seja como resumos gráficos, graphical abstracts ou visual abstracts. São todos sinónimos.


Um resumo gráfico é uma representação simples, com forte componente visual, que resume as principais informações de uma investigação científica. Não substitui a leitura completa do artigo, mas permite captar mais leitores e transmitir as principais conclusões rapidamente.

Outras frase muito comum é que “uma imagem vale mais do que mil palavras” e todos conhecemos pessoas que “são mais visuais”. Em termos científicos, trata-se do efeito de superioridade de imagem, que nos mostra como a utilização de imagens facilita a retenção de informação a curto, médio e longo prazo (Nelson et al, 1976; Don et al, 1977; Medina, 2008). Após 3 dias, utilizando apenas texto, cerca de 10% das pessoas lembram-se dos conteúdos transmitidos. Quando utilizados elementos gráficos, esta percentagem salta para 65%.



Quais são as vantagens de ter um resumo gráfico?

De facto, o uso de resumos gráficos traz várias vantagens, ainda mais num altura em que os meios digitais se tornam imprescindíveis para comunicar:

  • Torna a divulgação de resultados visualmente mais atrativa;

  • Gera maior interação nas redes sociais, permitindo captar mais leitores;

  • Aumenta a memorização da informação transmitida;

  • Leva a evidência científica a mais pessoas, até fora do mundo científico.


E não é razão para menos: o uso de resumos gráficos gera até 7 vezes mais impressões nas redes sociais do que apenas utilizando texto (Ibrahim et al, 2017). Lembra-se daquela vez em que divulgou o seu artigo recém-publicado e partilhou o endereço da publicação nas redes sociais? Imagine que poderia ter chegado a 7 vezes mais pessoas. E que o dobro acaba por utilizar mesmo a sua investigação (West et al, 2020). São várias as investigações científicas que comprovam a eficácia dos resumos gráficos na comunicação de ciência e comunicação em saúde (Hoffberg et al, 2020).


Desde 2016 que as editoras das revistas científicas já começaram a promover a utilização desta fantástica ferramenta de disseminação de ciência (Beverley & Lin, 2022), incluindo o New England Journal of Medicine, British Medical Journal (BMJ), Elsevier ou JAMA. Hoje já são cerca de 75 revistas científicas que o fazem (Ramos & Concepcion, 2020). Ao enviar um manuscrito para submissão, já lhe será colocada a possibilidade de o fazer acompanhar por um resumo gráfico. Serviços para os quais as próprias plataformas chegam a cobrar 500€. Os resumos gráficos vieram para ficar.

Resultados de Ibrahim et al. Resumos gráficos aumentam até 7 vezes o número de impressões de um artigo nas redes sociais.

Conheça o curso Como criar um resumo gráfico 🎨 em https://www.comunicacaoemsaude.pt/curso-como-criar-um-resumo-grafico.



Passos para construir um resumo gráfico

Acredito que existem dois desafios principais que levam os investigadores e profissionais de saúde a não investirem na elaboração de um resumo gráfico:

  • O processo criativo implica resumir a investigação ou projeto a pouco mais de 100 palavras e traduzir essas informações numa componente gráfica;

  • Para construir de um resumo gráfico apelativo é necessário ter presentes conceitos básicos de design gráfico e saber utilizar algum programa de edição gráfica.


A identificação de uma ideia de destaque é um dos primeiros passos (e um dos mais importantes) na construção de um resumo gráfico. Obriga-nos a filtrar milhares de palavras numa mensagem principal, aquela que queremos que as pessoas não se esqueçam depois de lerem o artigo completo – e neste caso, de ver o resumo gráfico. Identificando essa mensagem principal, é tempo de procurar inspiração para a poder representar de uma forma diferenciadora e graficamente apelativa. É aqui que começa a separar a sua investigação ou projeto dos 7.000 artigos publicados diariamente. Recomendo uma visita à página do Visual Capitalist, para procurar inspiração em representações gráficas muito interessantes.


De forma resumida, os passos que necessita para construir um resumo gráfico são:

  1. Identificar público e contexto em que vai comunicar;

  2. Escolher informação relevante;

  3. Procurar uma ideia de destaque;

  4. Fazer esboços gráficos;

  5. Preparar “tela” de trabalho num programa de edição gráfica;

  6. Desenhar resumo gráfico, considerando boas práticas de design;

  7. Testar os materiais produzidos com o seu público ou pessoas próximas;

  8. Rever materiais produzidos de acordo com feedback;

  9. Exportar materiais produzidos no formato adequado.

Esquema de passos para criar um resumo gráfico.

Conheça o curso Como criar um resumo gráfico 🎨 em https://www.comunicacaoemsaude.pt/curso-como-criar-um-resumo-grafico.



Boas práticas na construção de resumos gráficos

Um resumo gráfico pode ter vários formatos, que devem incluir os seguintes elementos:

  • Título – Deve ser chamativo e pode incluir a principal conclusão da investigação;

  • Metodologia – Apenas se for relevante para compreender os resultados;

  • Resultados – Incluir apenas resultados mais relevantes, se possível com recurso a dados numéricos e com ícones ou imagens. Também podem ser representados em gráfico, mas a sua representação deve ser simplificada;

  • Citação – Incluindo autor, revista e ano de publicação.


Conheça o curso Como criar um resumo gráfico 🎨 em https://www.comunicacaoemsaude.pt/curso-como-criar-um-resumo-grafico.


Conheça nas listagens abaixo alguns dos aspetos que deve aplicar ou evitar num resumo gráfico (Ramos & Concepcion, 2020).

O que deve fazer

O que não deve fazer


Que aspetos gráficos devo ter em atenção num resumo gráfico?

Mas como fazer um resumo gráfico quando não somos designers gráficos? Existem alguns princípios básicos que podem ser aplicados em programas de uso corrente, como o Microsoft PowerPoint®:

  • Tipo de letra – Deve ser facilmente legível e incluir, no máximo, dois tipos diferentes de letra. No título pode dar um toque mais artístico.

  • Hierarquia visual – O tamanho da letra, o contraste e as cores que utilizar vão influenciar o que será lido primeiro. Tenha isso em conta.

  • Palete de cores – Use até um máximo de 5 cores (incluindo variações de uma única cor), que conjuguem bem entre si. Não se esqueça que as cores têm significados escondidos (por exemplo: verde significa algo positivo, enquanto vermelho significa algo negativo).

  • Contraste – As cores utilizadas no texto devem ter uma diferença em relação ao fundo, para facilitar a leitura. Depois de assistir a vários eventos científicos, este é um dos pressure points na produção de materiais informativos na área da saúde.

  • Uso de imagens – Devem ter sempre a maior resolução possível, para não ficarem desfocadas. Não recomendo o seu uso como fundo, mas apenas como elemento de destaque.

  • Uso de ícones – Uma das chaves para o sucesso dos resumos gráficos, já que são reconhecidos muito rapidamente e facilitam a memorização. Se possível, devem ser usados em formato SVG, para garantir que não perdem qualidade.

  • Alinhamento – Outro “detalhe” que faz toda a diferença e facilita a leitura de um resumo gráfico. Quase todos os programas têm linhas guias para ajudar, não há razão para não o fazer.

  • Espaço negativo – A dica que se aplica à culinária também se aplica ao design gráfico: na maioria das vezes, menos é mais. O tempo das “paredes de texto” tem de ficar para trás e dar espaço para a informação que realmente importa “respirar”.

  • Pictogramas – Alguns dos dados das investigações podem ser convertidos em gráficos de barras, os quais são facilmente traduzidos em pictogramas. São pequenos ícones que podem representar valores absolutos ou relativos e são mais facilmente compreendidos por pessoas com baixa literacia.


Estas, entre outras sugestões, são incluídas numa das revisões mais recentes sobre a utilização de resumos gráficos na disseminação de ciência (Beverley & Lin, 2022).


O meu objetivo é que todos os profissionais de saúde e investigadores adquiram bases para a criação de materiais informativos e divulguem as suas investigações e projetos de uma forma mais interessante, eficaz e apelativa. Claro que a colaboração com designers gráficos adiciona uma visão completamente distinta e competências no uso de ferramentas de edição às quais a maioria dos profissionais de saúde e investigadores não tem acesso. Em qualquer projeto, serão sempre uma mais-valia inestimável.




Como posso aprender a construir um resumo gráfico?

O curso Como criar um resumo gráfico destina-se a profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, farmacêuticos, nutricionistas, entre outros), investigadores de áreas biomédicas e estudantes na área da saúde. A primeira edição tem lugar no dia 3 de dezembro de 2022, das 9:30 às 13:00.


Esta formação decorre em formato online, permitindo adquira ferramentas práticas para criar um resumo gráfico, a partir de qualquer lugar. No final desta formação será capaz de construir o seu próprio resumo gráfico, recorrendo apenas ao Microsoft PowerPoint® e ferramentas disponibilizadas de forma gratuita.


Saiba tudo em https://www.comunicacaoemsaude.pt/curso-como-criar-um-resumo-grafico e inscreva-se já, por apenas 59€. Com este curso terá acesso a:

  • Uma sessão síncrona de 3 horas, sobre a construção de resumos gráficos;

  • Um documento de resumo dos principais conteúdos formativos;

  • Templates para a elaboração rápida de resumos gráficos;

  • Uma listagem de recursos relevantes para comunicar projetos e investigações;

  • Mentoria durante a produção de um resumo gráfico (até final de 2023), através de correio eletrónico.

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